19 de março de 2025 às 10:18
Roberta Anchieta nunca quis ser bailarina, professora ou astronauta. Desde criança, sabia que seu futuro seria no mercado de capitais. Afinal, em casa, acompanhar a oscilação da bolsa de valores fazia parte da rotina de infância.
“Se as ações subiam mais de 7%, eu e meu irmão ganhávamos presentes. Se fechava em queda, precisaríamos consolar nosso pai”, explica a executiva, cujo pai fez carreira - e mudou a vida da família - no mercado financeiro.
Numa regra comum a tantas famílias negras e de classe baixa, o estudo para eles, nunca foi opção, mas obrigação. "Fui criada para ser executiva", conta. E a certeza sobre a escolha profissional a fez trilhar um caminho estruturado.
Em um período ainda muito excludente, quando não havia política de cotas raciais, Roberta se tornou aluna de Matemática na concorrida Universidade de Campinas (Unicamp).
Em entrevista à EXAME, Roberta Anchieta destacou que as oportunidades que teve ao longo da carreira eram raras para pessoas negras na época. Ela atribui esse leque de possibilidades às melhores condições financeiras do pai.
Apesar desses privilégios relativos, a exclusão era uma constante em sua trajetória. "Sempre fui a única mulher negra dos espaços que convivia", revela. A influência do pai, porém, reverberou fortemente em sua autoestima.
Embora os dados mais recentes da PNAD contínua e do Censo Escolar mostrem avanços sobre a inclusão racial nas universidades brasileiras após a Lei de Cotas de 2012, ainda hoje estudantes brancas têm praticamente o dobro de presença no ensino superior quando comparadas às negras.
Ao receber o convite do Itaú, recebeu conselho categórico do pai: "É esse que você aceitará". A explicação: o banco, segundo ele, tinha um forte histórico de ética.
E o resto virou 25 de seus 47 anos, fazendo história como funcionária -- e inspiração -- no banco onde está até hoje. Há três anos, chegou à diretora de administração fiduciária, gerindo os fundos de investimento do grupo Itaú Unibanco.
Nos últimos quatro anos, se antecipou na preparação para Conselhos. Fez parte da primeira turma do Conselheira 101, iniciativa pioneira no Brasil, focada em qualificar altas lideranças femininas negras e índigenas para boards.
Ali, despertou para o impacto da representatividade. “Quando vi outras 19 mulheres negras, com o meu biotipo, foi um respiro, algo que não consigo explicar”, conta emocionada.
Ciente da responsabilidade adicional que carrega junto com suas conquistas, no Itaú a executiva é colíder do Blacks Itaú, grupo de afinidade que promove discussões sobre raça dentro da empresa. Segundo ela, o banco tem avançado na equidade racial com programas de mentoria.
Até 2025, a meta do Itaú é ter 35% a 40% de mulheres na liderança e aumentar a representatividade negra na organização para 27% a 30%. "A pauta racial não deve ser combatida apenas por negros, mas pela sociedade", afirma.