Giampiero Frisio, presidente global da ABB Eletrificação: “Há centenas de bilhões de dólares sendo direcionados globalmente para resolver um dos maiores desafios do planeta: gerar mais energia com menos emissões” (ABB /Divulgação)
Repórter
Publicado em 27 de março de 2025 às 07h07.
Última atualização em 27 de março de 2025 às 09h37.
Com mais de 130 anos de história global e presença em mais de 100 países, a ABB, gigante suíça de tecnologia, vê a eletrificação como o caminho mais promissor para um futuro com menos emissões e maior eficiência energética. O setor de eletrificação, antes considerado pouco dinâmico, se tornou o coração da estratégia global da companhia, representando cerca de 50% do faturamento da ABB. “Hoje, a eletrificação é o lugar onde se deve estar”, afirma Giampiero Frisio, presidente global da ABB Eletrificação, em entrevista exclusiva à EXAME.
Segundo ele, a transição energética acelerou os investimentos no setor. “Há centenas de bilhões de dólares sendo direcionados globalmente para resolver um dos maiores desafios do planeta: gerar mais energia com menos emissões”.
Só em 2025, a ABB Eletrificação deve investir mais de US$ 500 milhões em capital — construindo novas fábricas, linhas de produção e expandindo sua capacidade produtiva. Além disso, investirá US$ 1,5 bilhão em pesquisa e desenvolvimento (P&D) no mundo, com aumento de 20% apenas na área de eletrificação, afirma o presidente.
A ABB tem apostado fortemente em inovações voltadas para data centers, um mercado que cresce exponencialmente em todas as regiões, impulsionado pela adoção global de modelos avançados de inteligência artificial, como o DeepSeek, da China. Um exemplo é o HyperGuard, sistema UPS (fonte de energia ininterrupta) de estado sólido com 98% de eficiência energética, que segundo Frisio é a maior do mercado. “Estamos ajudando nossos clientes a reduzir o consumo de energia e os custos operacionais, além de aumentar a segurança dos dados.”
O executivo aponta ainda a crescente demanda por soluções que suportem o crescimento das fontes renováveis e a modernização de redes elétricas para evitar apagões, como o ocorrido no Brasil em 2023.
Neste ano a ABB comemora 50 anos da fábrica de Contagem (MG) e vê o Brasil como peça importante em sua estratégia na América Latina. Nos últimos cinco anos, a empresa investiu R$ 50 milhões em infraestrutura, modernização e contratação de mais de 100 profissionais na unidade mineira. A fábrica se tornou uma das 20 do grupo com o selo “Mission to Zero”, sendo abastecida por energia solar com meta de atingir zero emissões e zero descarte em aterros.
“Também há foco em inovação local. Embora os grandes centros de P&D estejam nos EUA, Europa e Índia, o Brasil colabora com esses hubs globais, adaptando soluções para o mercado local a partir das fábricas em Contagem (MG) e Sorocaba (SP)”, afirma.Para além das fábricas, a companhia também está de olho em startups. A empresa já investiu US$ 80 milhões em participações, sendo 60% dessas vindas do programa anual ABB Startup Challenge, que em 2025 será realizado na Espanha com foco em inteligência artificial e eficiência energética. “Um exemplo recente é o investimento na startup americana DG Matrix, especializada em transformadores de estado sólido”, diz o presidente global.
A IA, inclusive, já faz parte do dia a dia da ABB. Segundo o executivo, a empresa desenvolve soluções internas que utilizam inteligência artificial para acelerar tarefas, como a leitura e interpretação de propostas comerciais, além de produtos que integram IA em sistemas de energia.
O executivo também destacou os avanços da ABB em diversidade e inclusão. No Brasil, cerca de 20% dos cargos de liderança já são ocupados por mulheres — número que segue crescendo — e o índice de rotatividade da empresa é inferior a 2%.
“Cuidamos das pessoas para que elas cuidem do negócio. Esse é nosso diferencial”, diz ele, que está na empresa há 30 anos.
A divisão de eletrificação segue representando praticamente a metade do negócio global e, segundo o presidente global dessa divisão, continuará crescendo nos próximos anos. Em 2023, teve alta de 10% no faturamento em todas as regiões - incluindo Américas, Europa e Ásia. Para os próximos cinco anos, a meta é crescer entre 5% e 7% ao ano, além de incorporar aquisições que representem de 1% a 2% do faturamento anual.
Entre os mercados prioritários para novos investimentos em fábricas e infraestrutura estão os Estados Unidos, Índia e Sudeste Asiático.
“O Brasil segue como um dos países estratégicos, especialmente pelo potencial em energia solar e eólica, além da necessidade de modernização do setor elétrico”, afirma o CEO.
Outro movimento estratégico foi o spin-off da ABB E-Mobility, unidade de negócios de carregadores para veículos elétricos, que nasceu da aquisição da startup holandesa APION em 2010.
“A divisão já atua com soluções de carregamento ultrarrápido de até 400 kW — capazes de carregar 80% da bateria de um carro em apenas 15 minutos — e está sendo preparada para um IPO, dependendo das condições do mercado”, afirma Frisio.
Às vésperas da COP30, prevista para acontecer em novembro no Brasil, a ABB mantém seu compromisso com a transição energética e o Acordo de Paris, segundo o presidente da ABB Eletrificação.
“Na matriz energética, hoje a energia elétrica representa apenas 20% do consumo no Brasil. Para atingir as metas de redução de CO2 até 2050, esse número precisa subir para 50%. A eletrificação vai crescer mais rápido do que qualquer outra forma de energia”, afirma.
A ABB é uma multinacional suíça de tecnologia fundada em 1988, resultado da fusão entre a sueca ASEA (1883) e a suíça Brown, Boveri & Cie (1891). Com sede em Zurique e atuação em mais de 100 países, a empresa atua com soluções de eletrificação, automação industrial, robótica, motores elétricos e tecnologias para eficiência energética e transição energética.
Atende setores como indústria, infraestrutura, data centers, energia e mobilidade elétrica. Entre seus principais concorrentes estão Siemens, Schneider Electric, GE, Rockwell Automation, Honeywell e a brasileira WEG, com quem disputa mercado diretamente. Os resultados da ABB, inclusive, costumam ser acompanhados por analistas como referência para avaliação de empresas do setor, incluindo a WEG.