Mundo

Presidente da Tunísia destitui ministros após fechar parlamento

Em comunicado divulgado nesta segunda-feira, 26, a presidência da República anunciou as destituições do ministro da Defesa e do porta-voz do governo e ministro interino da Justiça

Kais Saied: decisão do presidente foi comemorada por grupos que se manifestaram durante o domingo, que saíram pelas ruas de diversas cidades, mas críticos o acusam de ter dado um golpe de Estado. (NurPhoto/Getty Images)

Kais Saied: decisão do presidente foi comemorada por grupos que se manifestaram durante o domingo, que saíram pelas ruas de diversas cidades, mas críticos o acusam de ter dado um golpe de Estado. (NurPhoto/Getty Images)

EC

Estadão Conteúdo

Publicado em 26 de julho de 2021 às 17h26.

Em mais um movimento de centralização de poder, o presidente da Tunísia, Kais Saied, destituiu o ministro da Defesa e o ministro interino da Justiça nesta segunda-feira, 26, um dia depois de suspender a atividade do Parlamento, demitir o primeiro-ministro Hichem Mechichi, e atribuir a si plenos poderes executivos no domingo, 25.

Em um comunicado divulgado nesta segunda-feira, 26, a presidência da República anunciou as destituições de Ibrahim Bartaji, ministro da Defesa, e de Hasna Ben Slimane, que era porta-voz do governo e ministro interino da Justiça. Ao mesmo tempo, apoiadores e opositores do presidente protestavam do lado de fora do parlamento.

A sede do legislativo foi cercado por tropas nesta segunda, que bloquearam a entrada de manifestantes e dos políticos depostos na noite anterior. Legisladores e apoiadores do partido Ennahdha - que tem maioria no Congresso - e manifestantes favoráveis ao presidente gritaram uns com os outros e alguns atiraram pedras. Relatos fotográficos mostram que houve feridos.

A decisão do presidente foi comemorada por grupos que se manifestaram durante o domingo, que saíram pelas ruas de diversas cidades, mas críticos - dentre eles, representantes do Ennahdha, o acusam de ter dado um golpe de Estado.

Saied afirma que agiu de acordo com a lei ao tomar suas últimas decisões. "A Constituição não me permite dissolver o Parlamento, mas sim suspender sua atividade", disse Saied, que tomou a decisão com base no Artigo 80 da Constituição, que permite que este tipo de medida seja adotada frente à um perigo iminente.

"Tomei as decisões que a situação exige para salvar a Tunísia, o Estado e o povo tunisianos", afirmou o presidente após se reunir com autoridades das forças de segurança. "Estamos em momentos muito delicados na história da Tunísia." Saied anunciou que assumirá o Poder Executivo com a ajuda do governo e nomeará um novo primeiro-ministro. Além disso, ele suspendeu a imunidade parlamentar dos deputados.

 

 

Entretanto, Rached Ghannouchi, que chefia o partido islâmico que domina o Parlamento, disse que o presidente não o consultou nem o primeiro-ministro conforme exigido pela lei. Ghannouchi, que é presidente da Câmara, tentou entrar no Parlamento, mas a polícia e as forças militares que guardavam o local o impediram.

Aliados estrangeiros do país norte-africano expressaram preocupação de que sua jovem democracia possa estar caindo novamente em uma autocracia. Em uma ação que certamente alimentará essas preocupações, a polícia fez uma batida nos escritórios da emissora Al Jazeera e ordenou seu fechamento.

A Tunísia, que deu início à Primavera Árabe em 2011 quando protestos levaram à derrubada de Zine El Abidine Ben Ali, que governou o país por quase 24 anos, é frequentemente considerada a única história de sucesso dessas revoltas. Mas a democracia não trouxe prosperidade: a economia da Tunísia já estava se debatendo antes da pandemia chegar, com 18% de desemprego, e jovens exigindo empregos e o fim da brutalidade policial protestaram em grande número no início deste ano.

O governo anunciou recentemente cortes nos subsídios para alimentos e combustíveis ao buscar seu quarto empréstimo do Fundo Monetário Internacional em uma década, alimentando a raiva em regiões empobrecidas. A pandemia apenas agravou esses problemas, e o governo recentemente impôs bloqueios e outras restrições em face de um dos piores surtos da África.

Furiosos com o mal-estar econômico e o tratamento inadequado da pandemia, milhares de manifestantes desafiaram as restrições do vírus e o calor escaldante na capital, Tunes, e em outras cidades no domingo para exigir a dissolução do Parlamento. A grande multidão de jovens gritou "Saiam!" e slogans pedindo eleições antecipadas e também pressionaram por reformas econômicas. 

Quais são as tendências entre as maiores empresas do Brasil e do mundo? Assine a EXAME e saiba mais.

Acompanhe tudo sobre:Crise políticaTunísia

Mais de Mundo

Marine Le Pen é considerada culpada de desvio de fundos do Parlamento Europeu

China descobre importante campo petrolífero em zona marítima de intensa disputa internacional

Trump não descarta terceiro mandato nos EUA

Aeroporto internacional da Malásia sofre ataque e hackers exigem R$ 10 milhões