Área destruída por bombardeio israelense em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza (Eyad Baba/AFP)
Agência de notícias
Publicado em 2 de abril de 2025 às 10h05.
Última atualização em 2 de abril de 2025 às 10h31.
O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, anunciou nesta quarta-feira, 2, que as Forças Armadas do Estado judeu estão expandindo as operações na Faixa de Gaza, incluindo planos para tomar "grandes áreas" do enclave palestino que voltou a ser alvo de operações militares após quase dois meses de trégua para troca de reféns por prisioneiros.
O anúncio acontece em um momento de forte pressão para o governo israelense, que enfrenta protestos pela situação com os reféns e pelos avanços do premier, Benjamin Netanyahu, sobre as instituições e o Judiciário. O Fórum de Famílias de Reféns e Pessoas Desaparecidas, a maior associação civil de apoio a parentes e amigos dos sequestrados pelo Hamas, disse estar "horrorizado" com o anúncio.
Katz afirmou que o território capturado pelas tropas seria "adicionado às zonas de segurança" que os militares atualmente mantêm em Gaza. Ele acrescentou que a operação de expansão incluiu a retirada em larga escala da população "das zonas de combate", e mencionou que a operação foi pensada "para destruir e limpar a área de terroristas e infraestrutura terrorista".
"Expandir a operação esta manhã aumentará a pressão sobre os assassinos do Hamas e também sobre a população de Gaza e avançará a realização do objetivo sagrado e importante para todos nós. Peço aos moradores de Gaza que ajam agora para depor o Hamas e devolver todos os reféns. Esta é a única maneira de acabar com a guerra", disse Katz em um comunicado.
O Fórum de Famílias de Reféns e Pessoas Desaparecidas emitiu um comunicado após o anúncio do ministério, em que se disse "horrorizado" com a decisão do governo. A organização tem liderado uma série de atos para pressionar as autoridades a se comprometerem a concordar com qualquer medida que possa devolver os cativos para casa.
"Ao invés de libertar os reféns com um acordo e acabar com a guerra, o governo israelense envia mais soldados a Gaza para combater nas mesmas zonas onde já lutaram diversas vezes", afirmou em um comunicado. "Expliquem como esta operação serve ao objetivo de recuperar os reféns e como planejam evitar colocá-los em perigo".
O Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas, afirmou na terça-feira que 1.042 pessoas morreram desde que Israel retomou os bombardeios ao enclave. A organização não diferencia civis e combatentes. Nesta quarta, Defesa Civil palestina indicou que 15 pessoas morreram, incluindo crianças, por ações israelenses contra residências na cidade de Khan Younis, ao sul, e no campo de refugiados de Nuseirat.
Mais de 140 mil pessoas em Gaza foram deslocadas desde que o cessar-fogo foi quebrado, de acordo com as Nações Unidas. Muitos estavam apenas começando a se reinstalar em seus antigos bairros na Faixa de Gaza antes de serem forçados a fugir novamente.
Em uma das ações confirmadas nesta quarta-feira, o Exército israelense disse ter atacado homens do Hamas em um edifício da ONU no campo de refugiados de Jabalia, ao norte de Gaza. A agência de Defesa Civil do território disse que a ação matou 19 pessoas na instalação, onde funcionava uma clínica da Agência para Refugiados Palestinos (Unrwa), incluindo nove crianças. Os militares israelenses dizem que o complexo era usado pelo Batalhão Jabalia para planejar ataques e acusou o Hamas de "explorar a população civil como escudo humano".
Ao romper a trégua que devolveu mais de 30 reféns entre janeiro e fevereiro, o governo israelense retomou uma abordagem de pressão total contra o Hamas, embora tenha oficialmente mantido canais de diálogo com mediadores. Sem nenhum avanço significativo em direção a um novo acordo, termos comuns não foram divulgados, embora autoridades do país tenham demonstrado comprometimento com algumas propostas radicais.
Nesta semana, Netanyahu expôs o que pareciam ser suas demandas para Gaza pós-guerra — todas as quais provavelmente não serão aceitas pelo Hamas. Elas incluem a deposição de armas pelo grupo terrorista, o controle abrangente da segurança israelense em Gaza e a implementação da proposta do presidente americano, Donald Trump, de que os palestinos abandonem o enclave.
"Esse é o plano. Não estamos escondendo isso. Estamos prontos para falar sobre isso a qualquer momento", disse Netanyahu no domingo.
O reposicionamento agradou sobretudo a extrema direita israelense, que também viu na guinada do governo a oportunidade de avançar com pautas internas. Itamar Ben Gvir, ministro de Segurança Nacional que retornou ao governo após a volta da guerra, visitou a Esplanada das Mesquitas, terceiro local mais sagrado para o islamismo em Jerusalém, nesta quarta-feira. A ida foi classificada pela Jordânia como uma "escalada perigosa", "invasão" e "provocação inaceitável".
O próprio Netanyahu avançou com suas pautas, em um momento em que ele é julgado por corrupção e pessoas de seu círculo íntimo também entram na mira das autoridades. O premier israelense aprovou recentemente na Knesset uma proposta de reforma judicial que amplia a interferência política no processo de escolha dos juízes de tribunais superiores e da Corte Suprema israelense, e avançou com a demissão de funcionários de agências e órgãos do sistema judicial, como o diretor do Shin Bet, Ronen Bar, e a procuradora-geral Gali Baharav-Miara.
Enquanto isso, em Gaza, a operação militar é alvo de novos questionamentos internacionais, após a denúncia do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha) sobre a morte de 15 trabalhadores humanitários por tropas israelenses. Testemunhas do caso, incluindo ao menos um médico que viu os corpos no Hospital Nasser, em Khan Younis, afirmaram que os corpos tinham sinais de execução.
"Eu pude ver três corpos quando eles foram transferidos para o Hospital Nasser. Eles tinham balas no peito e na cabeça. Eles foram executados. Eles tinham as mãos amarradas", disse o médico palestino Ahmed al-Farra. "Eles os amarraram para que não pudessem se mover e então os mataram".
A Médicos Sem Fronteiras anunciou que em meio à retomada dos combates e ao que chamou de "cerco" a comboios humanitários na fronteira de Gaza, medicamentos estão em falta ou se esgotando. A organização também citou a escassez de itens básicos, incluindo alimentos e água.
"As autoridades israelenses condenaram as pessoas de Gaza a um sofrimento insuportável com seu cerco mortal", diz Myriam Laaroussi, coordenadora de emergência de MSF em Gaza. "Esta imposição deliberada de danos às pessoas é como uma morte lenta, e deve terminar imediatamente".