Eletrobras: governança fica mais protegida após acordo (Nadia Sussman/Bloomberg)
Repórter Exame IN
Publicado em 28 de fevereiro de 2025 às 11h42.
As ações ordinárias da Eletrobras (ELET3) estão em forte alta nesta sexta-feira, 28, avançando 6%, e liderando os ganhos do Ibovespa após o anúncio do aguardado acordo entre a companhia e o governo federal.
O movimento é uma resposta positiva do mercado à definição sobre os direitos de voto da União na empresa, encerrando uma disputa que gerava incerteza para investidores.
“O carnaval chegou mais cedo para a Eletrobras”, escreveu o Itaú BBA em relatório a clientes, destacando que os termos do acordo foram bastante favoráveis para a companhia. O banco reitera sua recomendação de compra e projeta um preço-alvo de R$ 54,93 para os papéis da empresa. “Esperamos que a ação reaja muito positivamente à notícia”, apontam os analistas.
A Ativa Investimentos compartilha da mesma visão otimista e também recomenda compra, com um preço-alvo de R$ 59,00 para as ações preferenciais (ELET6) e R$ 54,00 para as ordinárias (ELET3). “Julgamos o resultado da arbitragem positivo para a Eletrobras e acreditamos que este tem potencial de destravar valor para a maior companhia elétrica do país”, escreveram os analistas da corretora.
O acerto firmado entre a União e a Eletrobras na Câmara de Mediação e Conciliação (CCAF) manteve o limite de 10% no poder de voto para qualquer acionista, um ponto-chave para garantir que a empresa siga como uma corporation, ou seja, com capital pulverizado e sem um controlador definido.
Em troca, o governo poderá indicar três dos dez membros do conselho de administração e um dos cinco membros do conselho fiscal. Essa era uma possibilidade já esperada pelo mercado e, segundo a Ativa, não altera o status quo da empresa.
Além disso, o acordo resolve uma questão sensível envolvendo a Eletronuclear e a construção da usina de Angra 3. Pelo novo acerto, o compromisso da Eletrobras com o financiamento do projeto foi suspenso, e qualquer decisão futura sobre a usina dependerá de um novo modelo de financiamento. No curto prazo, a Eletronuclear emitirá R$ 2,4 bilhões em debêntures, que serão subscritas pela Eletrobras para a extensão da vida útil da usina de Angra 1.
O Itaú BBA destacou que essa mudança é extremamente positiva para a Eletrobras, pois remove a obrigação da companhia de capitalizar a Eletronuclear caso o governo decida avançar com Angra 3. O banco ainda ressalta que, caso a Eletronuclear reduza suas despesas controláveis a um nível considerado eficiente pela Aneel, parte das debêntures poderá ser convertida em ações da companhia nuclear.
A Ativa, por sua vez, avalia que essa solução pode gerar algum impacto no fluxo de caixa livre da Eletrobras no curto prazo, mas que a companhia tem estrutura financeira para sustentar esse desembolso sem comprometer sua alavancagem. “Os benefícios de seguir como uma corporation superam em muito o ônus da necessidade de desembolso existente”, apontam os analistas.
A forte valorização dos papéis nesta quarta-feira reflete o alívio do mercado com a resolução de uma disputa que vinha sendo acompanhada com atenção por investidores. O Itaú BBA vê o acordo como um marco para a estabilidade da governança da Eletrobras e afirma que ele cria um ambiente mais previsível para a tomada de decisões estratégicas.
Outro ponto de destaque do Itaú BBA foi a manutenção das cláusulas que protegem a estrutura de governança da empresa. Segundo o banco, o fato de o governo federal poder indicar três conselheiros não compromete a autonomia da companhia, uma vez que os indicados precisarão cumprir os critérios de governança estabelecidos no estatuto social da Eletrobras.
A alta das ações indica que, para o mercado, a negociação encerrou um período de incerteza e consolidou a Eletrobras como uma empresa de capital disperso, com maior autonomia para definir seus rumos. Com isso, a expectativa é que o fluxo de investimentos na companhia se fortaleça nos próximos meses, à medida que a empresa ganha mais previsibilidade em sua relação com o governo federal.