Esporte

Disparidade entre Brasil e Argentina no futebol: SAFs e gestão modernizada como diferencial

Futebol brasileiro cresce com SAFs enquanto Argentina enfrenta resistência à transformação do modelo de gestão

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 27 de março de 2025 às 13h52.

Apesar de a Argentina ter conquistado a última Copa do Mundo, em 2022, com Lionel Messi como protagonista, nos últimos anos, o distanciamento entre clubes brasileiros e argentinos tem provocado um desequilíbrio técnico e econômico, sendo refletido diretamente nos desempenhos e conquistas nas principais competições do continente.

Isso se acentuou, principalmente, com o crescimento em gestão de times como Palmeiras e Flamengo, que ganharam alternadamente a Copa Libertadores, entre 2019 e 2022, e ao surgimento de agremiações que se tornaram SAF no país, casos de Atlético-MG e Botafogo, que coincidentemente fizeram a final da competição em 2024.

Domínio brasileiro nas competições

Nos últimos seis anos, desde que a Copa Libertadores passou a ter final única, em 2019, somente dois clubes chegaram às finais, casos de River Plate, em 2019, e Boca Juniors, em 2023, mas ambos saíram derrotados. Neste período, aliás, domínio vem sendo inteiramente brasileiro, com seis taças consecutivas, o que vem trazendo preocupação não somente aos gestores argentinos, mas também às autoridades.
A disparidade entre brasileiros e argentinos, de acordo com especialistas, tem a ver, claro, com gestão, mas também com política. Desde que se tornou candidato à presidência da Argentina, em dezembro de 2023, que Javier Milei vem deixando claro seu desejo de constituir a entrada das SADs (Sociedade Anônima Desportiva) no país, equivalente às SAFs (Sociedade Anônima do Futebol) no Brasil.

Transformação na gestão do futebol

No final do último ano, Milei revogou um decreto que promovia benefícios fiscais para os clubes de futebol do país, numa demonstração que vai de encontro ao desejo de ver os clubes se tornarem empresas. Um pouco antes, em março, tão logo assumiu a cadeira, o mandatário discursou na feira agroindustrial Expoagro, num dos principais eventos da época em Buenos Aires, e revelou que o Grupo City tinha interesse em comprar grandes clubes da Argentina, e emendou: "É um investimento monumental. Ou preferem continuar nessa miséria, onde cada vez mais temos um futebol de pior qualidade?".
Em julho de 2024, o Governo da Argentina havia liberado o capital privado no futebol argentino a partir de novembro deste ano, autorizando a transformação em Sociedades Desportivas (SADs). Mas o principal entrave para essa mudança está na briga com Claudio Tapia, eterno presidente da Associação do Futebol Argentino - e que vem conseguindo mobilizar os clubes mais tradicionais do país, como o Boca Juniors, fazendo com que essas medidas cautelares acabem parando na Justiça e barrando essa liberação.

O impacto da gestão no futebol

"O Brasil é sabidamente o país mais rico da América do Sul e o futebol brasileiro é o resultado dessa condição. E a diferença com nossos 'hermanos' será ainda mais acentuada com o advento da Liga, mas para isso é necessária uma conversão de interesses dos dois movimentos hoje existentes em prol de um mesmo futebol nacional", analisa Cristiano Caús, sócio fundador responsável pela área de Direito Desportivo na CCLA Advogados.
Para José Francisco Manssur, sócio do escritório CSMV Advogados e um dos autores do projeto de lei que criou a Sociedade Anônima do Futebol (SAF) no Brasil, em agosto de 2021, qualquer tentativa de impedimento legal de que o clube escolha a forma como quer se organizar, viola um conceito universal do esporte, que é o conceito da autonomia da entidade esportiva.

“Proibir um clube de se organizar como empresa é tão grave quanto obrigar todos os clubes a se transformarem em empresa, sob o ponto de vista da violação à autonomia. E realmente é um atraso na adoção do conceito que se faz no mundo inteiro, que só tem aumentado a distância financeira entre os clubes da Argentina e os brasileiros,” analisa Manssur, reforçando o impacto das SAFs na melhoria das receitas e competitividade no Brasil.

Desafios econômicos na Argentina

Para o educador financeiro e diretor da Multimarcas Consórcios, Fernando Lamounier, o problema do Boca Juniors e de outros clubes argentinos em relação à discrepância de valores de receitas pode ser explicada, principalmente, pela diferença no modelo de gestão, estrutura de governança e tamanho do mercado esportivo em cada país.
"Outro fator importante é a distinção na estrutura das competições e premiações. Enquanto no Brasil a organização e o aporte financeiro de torneios como a Copa do Brasil e o Brasileirão criam um ambiente competitivo e atraente para investidores, na Argentina os torneios ainda enfrentam problemas de organização e baixos níveis de monetização. Isso reflete na capacidade de distribuir prêmios mais robustos e de estimular o crescimento econômico dos clubes", aponta.

Alternativas e o futuro do futebol argentino

Considerado uma das maiores potências da América do Sul, o River Plate projetou um caminho alternativo somente no começo deste mês de outubro ao entrar na Bolsa de Valores do país com a criação do Club River Plate Financial Trust. Na prática, qualquer interessado, seja pessoa física ou empresa, podem investir no clube com 12 mil pesos.
A medida serve justamente para o clube conseguir voltar a competir com mais ênfase no continente, já que a SAF (na Argentina, SAD - Sociedade Anônima Deportiva) é proibida pela Associação de Futebol da Argentina (AFA).

“Hoje existe uma disparidade econômica do futebol brasileiro em relação ao argentino,” comenta Sara Carsalade, co-founder e responsável pela vertical de esportes da Somos Young. Segundo ela, o mercado brasileiro está em evolução, com iniciativas como as SAFs, a profissionalização da gestão, e o uso de tecnologia e dados para melhorar processos. “Essas medidas extracampo influenciam no resultado de campo e isso fica nítido quando você observa que, em 2024, o Brasil chegará a seis títulos consecutivos da Copa Libertadores,” acrescenta Carsalade.

Perspectivas futuras para o futebol sul-americano

Para Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil, empresa de entretenimento norte-americana e que gerencia a carreira de centenas de atletas, a derrocada dos clubes argentinos também é fruto de um longo processo que combinou por décadas à depreciação econômica do país, e condena a proibição quanto a essas transformações. "Em qualquer sociedade que se apresente como livre, não cabe mais justificar proibições como essa que defende a confederação. Até na Venezuela o ambiente de negócios e administração dos clubes de futebol é hoje mais propenso a desenvolvimento. Quem defende o atual regime é quem extrai benefício próprio da política neles, e do seu caráter associativo, como se dava no passado com os maiores sindicatos", aponta.
Com seu estádio recém-reformado e recebendo mais de 80 mil pessoas em dias de grandes jogos, potencializando suas receitas e negócios, a ideia do River Plate ao entrar na Bolsa de Valores é de captar mais de 15 milhões de dólares, e usar esse dinheiro exclusivamente para melhorias no departamento de futebol, incluindo as categorias de base.

"A transformação dos clubes em SAFs em todo o mundo, e o Brasil é uma prova recente disso, retratam que é um caminho sem volta de investimentos dentro e fora dos campos, e um sinal de esperança não apenas para os chamados grandes, mas também aos menores, que passam a contar com novas receitas para incrementarem seus elencos e estruturas. É preciso, no entanto, boa gestão. Alguns clubes sul-americanos têm seguido esse caminho, mas é uma minoria. A partir do instante em que isso se tornar uma realidade, principalmente aos argentinos, creio que o nível de competitividade terá um efeito maior de equilíbrio", pontua Claudio Fiorito, presidente da P&P Sport Management Brasil, especializada no gerenciamento da carreira de atletas.

[Grifar] A transformação dos clubes em SAFs, como evidenciado no Brasil, é um caminho sem volta para o crescimento e equilíbrio do futebol sul-americano.

Acompanhe tudo sobre:FutebolEsportesBrasilArgentina

Mais de Esporte

Criação de nova liga depende de estabilidade política na CBF, afirmam presidentes de clubes

Flamengo TV quer revolucionar o mercado e potencializar receitas com novos reforços

Botafogo completa 3 anos de SAF com quase R$ 1 bilhão em investimentos

Por que Vini Jr. e Mbappé estão sendo investigados pela Uefa por comemoração na Champions