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O necessário salto da produtividade

Brasil ocupa 78ª posição no ranking de produtividade que abrange 131 países, depois de Uruguai, Argentina e Chile

A indústria da beleza: o Brasil é o segundo no ranking dos países que mais lançam produtos anualmente (Leandro Fonseca/Exame)

A indústria da beleza: o Brasil é o segundo no ranking dos países que mais lançam produtos anualmente (Leandro Fonseca/Exame)

Publicado em 1 de abril de 2025 às 14h38.

Por Humberto Casagrande

Os países mais bem-sucedidos economicamente têm em comum a busca constante pelo aumento da produtividade no trabalho. Não é para menos: em um mundo que valoriza os diferenciais competitivos, no qual é preciso sempre produzir melhor a um custo menor, não há outra saída.

Para nós, brasileiros, essa realidade tem significado uma crescente dor de cabeça. O País ocupa o 78º. lugar no ranking de produtividade que abrange 131 países, ou seja, estamos na metade de baixo da tabela, depois de nossos vizinhos Uruguai, Argentina e Chile e ao lado de países como Mongólia e Venezuela.

É uma posição que precisamos reverter com urgência. Não há como falar em crescimento econômico e desenvolvimento sustentável – e, portanto, no bem-estar da população -- se não conseguirmos reverter esse quadro. E um dos primeiros passos nesse sentido é conhecer as medidas que deram certo em outros países.

Nas nações exitosas, um dos pontos em comum adotados em favor da produtividade é a ênfase à melhoria do ensino superior. De Singapura aos Estados Unidos, esse é um dos principais alicerces que suportaram o desenvolvimento dos países . Profissionais cada vez mais bem preparados e alinhados às necessidades do mercado têm sido responsáveis pela elevação da qualidade da produção em todas as áreas.

E como está o Brasil nessa correlação entre ensino superior e produtividade? A resposta é desanimadora. De fato, temos em nosso país uma situação paradoxal: cresce o número de pessoas com nível superior de ensino, mas a produtividade não dá sinais de melhora.

Não é difícil entender os motivos desse aparente paradoxo. Os números do IBGE mostram que a proporção de pessoas com 25 anos ou mais com nível superior completo cresceu 2,7 vezes entre 2000 e 2022. No entanto, há crescente desconexão entre o que se ensina nas universidades e as necessidades do mercado de trabalho – um sinal claro de que a qualidade do ensino precisa melhorar. Resultado: a correlação entre produtividade e ensino superior fica seriamente prejudicada.

Um dos vários exemplos dessa realidade é a significativa redução do número de engenheiros formados, com reflexos em setores fundamentais para o país como infraestrutura, energia e tecnologia. Estudo da CNI (Confederação Nacional da Indústria) mostra que há um déficit de 75 mil engenheiros no país, ao mesmo tempo em que aconteceu redução de 44,5% nas matrículas em cursos presenciais de engenharia nas universidades entre 2014 e 2020, de acordo com o Semesp (Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior).

Esse descompasso tem entre suas origens a crescente resistência às Ciências Exatas e à errônea visão de que Matemática e Física, por exemplo, são muito difíceis de aprender. O que está incorreto, na verdade, é a metodologia utilizada no ensino dessas matérias, desde a educação básica. A falta de aplicação prática e a abordagem rígida adotadas nas escolas levam os jovens a perder o interesse pela engenharia. É necessário valorizar o ensino de ciências exatas e modernizar os currículos universitários.

Diante desse quadro, precisamos agir de imediato para evitar que a situação de perpetue, com perdas para toda a sociedade. Ciente dessa necessidade, o CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola) reuniu no final do ano passado representantes do Instituto Mauá, Mackenzie, FEI e Poli-USP no Instituto de Engenharia, em São Paulo, para assinar um Memorando de Entendimentos (MOU) para formalizar a colaboração entre essas entidades e partir para ações de combate à falta de engenheiros.

Além disso, lançamos a Jornada CIEE, para aumentar o interesse pela matemática já nos primeiros anos escolares. Nesse programa, em um ambiente gamificado na ilha fictícia de Mátika, os estudantes são desafiados a resolver problemas matemáticos para ajudar seus habitantes e obter pistas necessárias para restaurar uma inteligência artificial que controlava todos os cálculos da ilha.

É uma contribuição que certamente se seguirá de várias outras visando a qualificação da mão de obra com foco em habilidades técnicas e digitais. Em seus 61 anos de existência, o CIEE já ajudou 6 milhões de jovens a entrar no mercado de trabalho e está colocando sua experiência à disposição da sociedade, sempre trabalhando em conjunto com outras entidades.

Precisamos, todos nós, unir forças para acabar com o círculo vicioso que coloca o Brasil em posição tão desfavorável em relação à produtividade, que tanto depende do ensino superior. Os primeiros passos estão sendo dados e é preciso fazer mais. Só assim poderemos deixar como legado um país melhor e mais justo. Potencial não nos falta. Precisamos agir!

*Humberto Casagrande é CEO do Centro de Integração Empresa-Escola – CIEE.

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