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Como investir em arte com segurança e ética?

Neste artigo, Adriana Geissmann Jacob e Rafael Albuquerque trazem um guia prático de como investir em arte de forma legítima, transparente e alinhada a boas práticas de gestão patrimonial.

Uma abordagem ética preserva o valor simbólico da arte: sua contribuição cultural e histórica (SeventyFour/Getty Images)

Uma abordagem ética preserva o valor simbólico da arte: sua contribuição cultural e histórica (SeventyFour/Getty Images)

Rafael Albuquerque
Rafael Albuquerque

Colunista Bússola

Publicado em 27 de março de 2025 às 10h00.

O investimento em arte vem ganhando espaço como uma alternativa sofisticada para diversificação de portfólio e preservação de patrimônio a longo prazo. Obras de artistas renomados, especialmente os chamados blue chips, tendem a se valorizar de forma consistente, mesmo em cenários de alta volatilidade econômica. Além disso, quando bem estruturada, a aquisição de arte pode trazer vantagens fiscais e sucessórias importantes.

Mas esse universo também apresenta armadilhas – especialmente para quem ignora os riscos de transações obscuras, falsificações e esquemas de lavagem de dinheiro. Por isso, entender como investir com ética, segurança e práticas modernas de compliance é essencial, tanto para investidores iniciantes quanto para colecionadores experientes. 

Por que considerar arte como investimento?

Segundo o Art Basel and UBS Art Market Report 2023, o mercado global de arte movimentou cerca de US$ 67,8 bilhões em 2022, e manteve relativa estabilidade mesmo diante das incertezas pós-pandemia. Obras de arte blue chip apresentaram uma valorização média anual entre 7% e 9% nas últimas duas décadas, segundo dados da Deloitte Art & Finance.

Além do potencial de retorno, investir em arte permite construir um portfólio com baixa correlação a ativos tradicionais, o que reduz riscos sistêmicos. No entanto, esse mercado exige estruturação profissional e ferramentas de governança semelhantes às utilizadas no setor financeiro.

Riscos e cuidados essenciais

1. O valor subjetivo da arte 

Diferentemente de ações ou imóveis, o valor de uma obra de arte não é facilmente mensurável por critérios objetivos. Ele é influenciado pela trajetória do artista, reputação no meio crítico, presença em museus e catálogos raisonnés, e por ciclos de interesse do mercado. 

No Brasil, nomes como Alfredo Volpi, Lygia Clark e Di Cavalcanti compõem a categoria dos blue chips, frequentemente escolhidos por colecionadores que buscam preservação patrimonial e liquidez futura. Mesmo assim, é essencial contar com art advisors ou consultores jurídicos para análise de procedência e autenticidade. 

2. Falta de regulamentação e anonimato

Até recentemente, muitas transações no mercado de arte podiam ocorrer de forma anônima, sem verificação da identidade dos compradores. Isso favoreceu esquemas ilícitos – especialmente em países com baixa fiscalização. Hoje, a tendência é clara: implementação de práticas como KYC (Know Your Customer) e KYP (Know Your Partner) também no setor artístico.

As casas de leilão e galerias mais respeitadas já adotam rotinas de due diligence, exigindo a documentação completa da obra, incluindo:

  • Certificados de autenticidade;
  • Registros de exposições;
  • Histórico de propriedade e vendas;
  • Comprovação de origem lícita.

Esses dados fortalecem a posição do colecionador caso deseje vender ou doar a obra no futuro.

3. Freeports: logística e risco

Freeports são zonas de livre comércio que permitem o armazenamento de obras de arte sem cobrança imediata de impostos. Embora úteis para gestão logística e fiscal, esses espaços já foram associados a lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial. 

Nos últimos anos, órgãos reguladores europeus e asiáticos vêm impondo maior transparência e rastreabilidade dentro desses depósitos. Por isso, se uma obra passou por um freeport, o investidor deve investigar cuidadosamente sua trajetória para verificar sua legalidade e integridade documental. 

4. Transações múltiplas e valorização artificial 

Outro risco é a manipulação do valor de obras por meio de sucessivas vendas fictícias entre partes relacionadas. Essa prática visa inflar preços artificialmente, criando um histórico falso de valorização. Para se proteger, o investidor deve desconfiar de preços incompatíveis com o histórico do artista ou a média de mercado. 

Hoje, várias casas de leilão e plataformas digitais já aderem a padrões internacionais de compliance e monitoramento de transações, semelhantes às exigências de bancos e gestoras. 

5. O exemplo do Cartel de Sinaloa 

Um dos casos mais emblemáticos de uso indevido da arte foi o do Cartel de Sinaloa, que utilizou obras para ocultar e lavar dinheiro do narcotráfico. Esse e outros episódios levaram à criação de protocolos mais rigorosos de verificação da origem dos recursos em transações artísticas. 

A resposta global tem sido clara: a arte deve ser tratada como ativo financeiro regulado, com responsabilidade fiscal, ética e jurídica. E cabe ao investidor, por meio de estruturação patrimonial e governança adequadas, garantir sua integridade e reputação. 

Como evitar comprar obras envolvidas em lavagem de dinheiro? 

Se você é um colecionador ou investidor em arte, adotar as seguintes práticas pode evitar riscos jurídicos e reputacionais:

  • Defina objetivos claros para sua coleção – Escolha se irá focar em blue chips, artistas emergentes ou arte contemporânea, sempre considerando liquidez, valor cultural e estabilidade.
  • Compre apenas de fontes confiáveis – Dê preferência a galerias, leiloeiras e art advisors com histórico transparente e boa reputação.
  • Exija documentação completa – Certificados de autenticidade, proveniência, histórico de vendas e exposições são obrigatórios para validar uma peça.
  • Verifique se a obra passou por freeports – Se sim, investigue com cuidado as condições de armazenamento e a legalidade das transações envolvidas.
  • Desconfie de preços inflacionados sem justificativa – Isso pode ser um sinal de valorização artificial com finalidades ilícitas.
  • Consulte bases internacionais – Como o Art Loss Register, Interpol e UNESCO, que mantêm registros de obras roubadas ou ligadas a atividades ilícitas. 

O papel da gestão patrimonial na proteção do investidor 

A arte, como qualquer outro ativo de alto valor, deve ser integrada a uma estratégia patrimonial bem estruturada. Ao alinhar o investimento em arte às boas práticas de compliance, auditoria, governança familiar e planejamento sucessório, o investidor amplia sua segurança jurídica e multiplica o potencial de valorização de longo prazo. 

Além disso, uma abordagem ética preserva o valor simbólico da arte: sua contribuição cultural e histórica. Ao mesmo tempo em que protege o capital, o investidor que age com transparência também apoia artistas legítimos e fortalece um mercado mais sustentável. 

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Co-autores:

Adriana Correia Geissmann Jacob Bloch Guimarães Melo, é economista pela FAAP, com carreira focada em arte como ativo alternativo com especialização na Ecole du Louvre, ArtTactic e no Museu Victoria & Albert. Atua como Private Art Advisor Independente, além de ser colecionadora.

Rafael Gonçalves de Albuquerque é advogado, sócio do Marins Bertoldi Advogados, cofundador da gestora de patrimônio Catalysis Wealth e colunista da Bússola Exame.

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